sábado, 26 de junho de 2010

Granizo

Está tudo bem, eu e o meu amigo conversamos horas, rimos, celebramos, ouvimo-nos em voz baixa, descobrimos os nossos defeitos comuns. E de repente, a terminar a noite, uma frase fora do sítio, implacável, sinceridade a mais, sensibilidade a mais, cinzas que resolvem cair, o granizo da amizade.

in Sete Sombras

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Zona de Embarque

Olho constantemente para a porta na esperança de te ver chegar outra vez. Minto. Nunca cá estiveste de verdade, apenas aqueles que queriam roubar-te o lugar, mas esses têm partido e poucos deixam memória.
Sinto vontade de voltar atrás no tempo, não para um momento qualquer em específico, daqueles que dizemos definirem a nossa vida e traçarem o futuro a que agora chamamos presente. Sinto falta da despreocupação, da inocência, do pensamento altruísta de que o futuro havia de ser melhor e apagaria as mágoas e erros do passado. Quero tudo isso de volta. E quero acreditar que hás-de chegar, nem que seja quando eu menos esperar e vindo do local mais impensável para mim.
Não posso afirmar que já te tenha sentido aqui alguma vez. Já pus essa hipótese, contudo. Talvez ainda agora. Mas às vezes confundo-me: não sei se é porque quero ou porque preciso acreditar que sim, que chegaste para ficar. Não. Quando chegares e vieres à minha procura, eu hei-de saber que a espera e a fé valeram a pena porque irei ter a certeza num instante apenas. Falta estabelecer o ponto de encontro.
Mas podes de facto já ter chegado sem grandes manifestações e por não seres o que eu esperava, não ter reparado que chegaras pronto para enfrentar a minha realidade. Ocorre-me que já possas ter chegado então, mas não saberes tu o que te esperava. Pode ser que vivas o dia sem saberes onde planeias chegar e quem hás-de encontrar. Pode ser que eu seja um erro de casting e que a hora seja errada e tudo não passe de uma quimera.
E, por outro lado, podes ser tu quem me espera ainda e eu quem te deve buscar. Se assim for, desisto porque a mim não me fizeram lutadora e aventureira como tu, tão-somente fraca e sentimental. E assim já não quero. Agora preciso voltar atrás, reencontrar-me, ao meu “eu” destituído de expectativas, pronta a agarrar tudo o que surgir e ir ao encontro de tudo o que fugiu sem autorização.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alma

Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, inclui-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo (possuímos apenas a nossa sensação dele) e, porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria...
Possuímos a alma? - ouve-me em silêncio - Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e alma há o abismo de serem almas.

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

domingo, 6 de junho de 2010

Linhas Cruzadas - Virgem Suta

Reajo a esse incómodo olhar
Nem quero acreditar que vem na minha direcção
Há dias que estou a reparar, nem queres disfarçar
Roubas a minha atenção.
Aprecio o teu dom de tornar, num clique o meu falar
Numa total confusão.
Confesso que só de imaginar que te vou encontrar
Me sobe à boca o coração

E falas de ti e Falas do tempo
Prolongas o momento
Com um simples cumprimentar.
Falas do dia, falas da noite
Nem sei que responda
Perdido no teu olhar.

É certo que sempre ouvi dizer
Que do querer ou fazer vai um enorme esticão.
Mas haverá quem possa negar
Que querer é poder e o nunca é uma invenção.
Bem sei que este nosso cruzar
Pode até nem passar de um capricho sem valor
Mas porque raio hei-de evitar
Se esse teu ar me trouxe ao sangue calor.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Des(ilusões)

É comum a chegada de um momento em que o que esperamos dos outros não se coaduna com aquilo que eles estão dispostos a dar. E quando esse momento chega há que ser superior. É comum também a altura em que descobrimos coisas acerca dos outros que julgávamos serem diferentes e em que somos obrigados a repensar tudo o que até ali era certo, do nosso ponto de vista. É também comum a ocasião em que apesar de terem dito igual, as pessoas fazem diferente e nos confundem e perdem, assim, a confiança que neles depositávamos.
Ninguém conhece outrem totalmente e todos os dias somos confrontados com esse facto e tomámos a nossa posição. Podemos ignorar, questionar ou tentar mudar, mas não somos nós o cerne da questão. Ou talvez sejamos, uma vez que somos nós quem espera demais, quem acredita e quem confia – quem se ilude.
Estes são instantes em que somos forçados a pôr os pés no chão, a encarar a realidade e a aprender a lidar com ela. Instantes que nos fazem crescer, perder a inocência que tanto prezamos e ver as coisas tais como elas são – sem qualquer perfeição mascarada.
Desilusão é uma das palavras mais fortes que existe no nosso vocabulário, é algo que dificilmente volta atrás e dificilmente se conserta, por isso eu só a digo, porque tenho a real noção do seu valor, quando não há mais nada a fazer e todas as opções viáveis se esgotaram.